(P. Brack, 09-08-2010, Ecoagência)
Quando
sentimos que algo anda mal em nossa saúde, consultar um médico e
realizar um diagnóstico da causa destes sintomas é fundamental. O
médico, após os exames, pode verificar se é um caso grave e emergencial,
como uma doença no sistema cardiovascular, por exemplo. Não é possível
que se esconda o veredicto real e o alerta quanto ao que deve ser feito.
Isso deve ser encarado, sem medo, avaliando-se o quadro, os
prognósticos, dentro de cenários, se queremos continuar vivendo.
Se não fizermos nada, isso significa uma irresponsabilidade. Quase um
suicídio. Se quisermos viver, e prezamos por nossos filhos, parentes,
amigos e todas os que nos querem bem, vamos ter que mudar para garantir a
nossa vida. Inclusive com mais felicidade. Então, diante do quadro, as
mudanças devem ser feitas. Algumas urgentes, outras graduais, mas sem
demora: mudarmos nossa alimentação, nossos hábitos, e acompanharmos mais
de perto nossa saúde e as recomendações médicas. Buscarmos aquilo que,
talvez, já percebíamos que seria necessário fazer, mas não tínhamos
coragem de tomar a decisão. A vida não pode esperar a boa vontade do
paciente.
A
situação exposta acima é uma provocação a todos nós, e que pode ser
transposta para a situação ambiental que cerca o comportamento da
sociedade hegemônica atual, inclusive nestas eleições.
Segundo o Professor Rualdo Menegat, da UFRGS, um dos maiores estudiosos da questão ecológica e comportamental da
sociedade contemporânea, estaríamos presenciando a “Febre do Planeta Terra”, no que se refere ao tema do aquecimento global. E diz que a
situação que envolve, entre outros temas, a contaminação da água que
bebemos, mostra “a progressiva cegueira da civilização humana em relação à natureza”. Alerta, ademais, que “a humanidade está bordejando todos
os limites perigosos do planeta Terra"..
Edward Wilson, o mais renomado especialista internacional no tema da
biodiversidade, admite que “Os cientistas estimam que se a alteração
de hábitat natural e outras atividades humanas destrutivas continuarem,
no ritmo atual, a metade das espécies animais e vegetais da Terra se
extinguirá ou estará em perigo de extinção até o final deste século.
Somente as alterações do clima farão que 25% das espécies existentes
alcancem essa perigosa situação nos próximos cinquenta anos. Se não
conseguimos diminuí-la, o custo para a humanidade em riquezas, segurança
ambiental e qualidade de vida será catastrófico”.
Segundo este autor, estamos passando pela sexta extinção em massa no
Planeta, e por causas humanas. A recuperação, para restabelecer a
diversidade biológica, nesta magnitude de perda, poderia levar mais de
10 milhões de anos. E, ademais, considera que os EUA são os principais
responsáveis pelo consumismo, que seria uma das principais causas à
degradação ecológica mundial, afirmando que “Se todo o mundo consumisse a
mesma quantidade de energia que utilizam os países ricos,
necessitaríamos quatro planetas a mais como a Terra para viver”.
No
mesmo sentido, afirma Eduardo Galeano: “Dize-me quanto consomes e
te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem,
nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à
luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas
de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas
estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de
pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito
bom para a indústria farmacêutica".
Em resumo, a vida no Planeta está doente pelo modo de vida da
sociedade dita moderna. Vivemos uma crise sem precedentes. Crise
climática, ambiental, social e uma crise ética e política. Uma Crise
Sistêmica. Consumismo, desigualdade e violência. Cerca de 20% da
população mundial consumindo 80% dos recursos do mundo. Um por cento da
população dona de mais de 40% da riqueza econômica mundial. E, ainda por
cima, a minoria permanece insaciável por querer acumular mais, e sem
limite.
Não é mais possível rodeios ou subterfúgios. Estamos vivendo tempos,
talvez nunca vistos, de um avanço na voracidade e na ganância econômica.
O quadro é muito grave. Mas parece que alguns não querem que encaremos
isso. O vício do poder impregnou as regras econômicas e políticas, e sua
perversidade domina também as eleições. Pregam-nos a passividade, do
espetáculo das futilidades. Despejam-nos a desesperança, o desencanto
político e a apatia. Uma apatia mórbida e pandêmica. Tentam nos seduzir
pelo adesismo. Pelas atitudes de fisiologismo político dos partidos
conservadores de plantão, que apodrecem em sua falta de sentido que não o
próprio poder.
O lema por “Outro Mundo é Possível” parece ter ficado impossível. No
Brasil, a maior torneira da insustentabilidade e da concentração
econômica se chama: BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social). Desenvolvimento? Social? Para quem? É o anabolizante das obras
gigantescamente degradadoras (como no caso último da Usinas de Belo
Monte, no rio Xingu). Quem mais ganha são as grandes doadoras de
campanhas. No Brasil, o ralo socioambiental desta subserviência aos
ditames da competitividade global se reflete no PAC (Programa de
Aceleração do Crescimento), a semelhança do Programa Avança Brasil, de
FHC, ou mesmo no “Milagre Brasileiro”, sob as ordens dos generais da
década de 70. No mesmo antissentido está o financiamento governamental
(mais de 100 bilhões de reais) às monoculturas empresariais, para a
próxima safra, que nos manterão no “prêmio” de país campeão mundial no
uso de agrotóxicos, deixando só para a história o título de país
megadiverso.
Neste círculo vicioso, da concentração autofágica, muitos optaram
pelo poder, pelo poder. O crescimento dos seus negócios hipertróficos,
de seu poder mesquinho e de sua falta de inteligência. Eis a nossa
grande adversária nestas eleições: a patologia econômica que se espraia
pelo Planeta e também por aqui. Esta doença está no PAC. Alguma dúvida?
Então, que nos expliquem como uma hidrelétrica (UHE Pai Querê), que
geraria menos de 6% das usinas já existentes no rio Pelotas (RS-SC),
pode condenar a morte 200 mil araucárias, cinco milhões de árvores e
causar a extinção de pelo menos dez espécies de peixes, em uma Área
Prioritária para a Conservação? Como justificar a morte do rio Xingu,
com Belo Monte, que alimenta com seus peixes dezenas de povos indígenas e
milhares de ribeirinhos. Isso é progresso ou insensatez? Sapiência ou
demência? Poderíamos votar em alguém que defende estes projetos do PAC?
Esta bula está visível para nós?
Apesar de o processo eleitoral estar longe da democracia, ainda
existe um espaço importante para a discussão e o amadurecimento
político. Entretanto, o debate e a participação deveriam acontecer
também em outros momentos. Em um processo, genuinamente democrático e
popular. Mas para isso necessitamos de maior questionamento,
mobilizações, plebiscitos, campanhas e avançarmos para outra forma de
política, mais saudável e inteligente, com desconcentração econômica,
descentralização em tudo e, sobretudo, com ética pela vida, sem voto
útil.
Eleger políticos do campo socioambiental e/ou comprometidos pode e
deve ajudar a política, mas não é o único caminho. Temos que lutar,
como disse o bispo do Xingu, Erwin Kräutler, que resiste à
“monstruosidade apocalíptica” de Belo Monte por “Um País Diferente,
Justo e Fraterno”.
Se aceitarmos candidatos que recebem doações de campanha por empresas
estaremos condenando à morte a política e a democracia. Quem dá mais
quer sempre mais. Inclusive, a derrubada da legislação ambiental, como
ocorreu com as empresas de celulose, no Rio Grande do Sul, em 2007. Um
ano antes, as gigantes empresas do setor doaram cerca de dois milhões de
reais para mais de 70 candidatos a deputado e a governador, só no
Estado. Resultado, três ex-secretários de meio ambiente da SEMA, quando
candidatos, receberam recursos de empresas licenciadas anteriormente por
eles. “Coincidentemente”, depois das eleições de 2006, as empresas
obtiveram a derrubada da secretária da SEMA, que estaria “demorando” nas
licenças para plantar monoculturas arbóreas no Pampa e aonde quisessem.
O financiamento eleitoral deve ser público, nunca de empresas. Fora
disso, é abrir espaço para a corrupção político-eleitoral,
principalmente com as chamadas “sobras de campanha”.
Estamos diante das bulas das mais importantes para evitarmos que as
burlas políticas do voto útil, neste continuísmo nauseante, nos
provoquem os efeitos colaterais de uma chaga que pode continuar a
comprometer ainda mais o futuro da saúde do país e do planeta como um
todo. A decisão de mudar pode doer um pouco, mas está em nossas mãos e é
fundamental à vida.


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